Surviving To Cielo | Degustação
PRÓLOGO
OLÍVIA
Olhei pela janela, vendo as nuvens negras que vinham
do bosque cercarem agora a casa e os arredores, dando um brilho bonito a tudo.
Sorri com aquilo. Havia algo melhor que dias frios
de chuva?
Levantei-me da cadeira, deixando o livro que tinha
nas mãos por cima da mesa de apoio, e atravessei a casa, sentindo o silêncio.
Com os miúdos fora de casa, uma paz estranhamente
calmante colava-se nas paredes, e eu nem sabia como reagir a isso.
Subi as escadas até o primeiro andar, indo até o
escritório e dando duas batidas, abrindo a porta logo em seguida.
- Incomodo? - perguntei, com um meio sorriso.
Ela dispersou a atenção que mantinha na janela
transparente, com vista privilegiada para o bosque, e virou-se para mim. A sua
expressão era neutra e simples.
- Nah... Já terminei o que tinha a fazer. - adentrei
o cómodo, parando por trás da cadeira.
- Eu vou ver a chuva lá no quintal. Queres juntar-te
a mim? - perguntei, expectante.
Ela andava longe.
As viagens e o trabalho consumiam-lhe a maior parte
do tempo, eu sabia, mas ainda sentia sua falta. Talvez agora, em casa e em paz,
ela percebesse isso de uma vez por todas.
Um sorriso ladino tomou conta dos seus lábios.
- Claro. - a sério? - Deixa-me trocar estas roupas
por algo mais leve.
Observei-a. Tendo vindo trancar-se naquela sala
assim que chegara, eu podia apreciar o seu terno completamente preto, que lhe
caía tão bem.
Ela virou-se, ficando de frente para mim, e pude
sentir o seu olhar passear pela minha pele.
- Quero compensar um pouco a minha ausência aqui e
assim... - soltou o ar, voltando a encarar-me os olhos enquanto segurava a minha
mão.
- Não te preocupes, está tudo bem. - dei de ombros,
vendo-a puxar-me para perto.
- Não o faço por dizeres que está tudo bem,
simplesmente porque... Sinto-me um pouco mal de estar a pôr-te nessa situação
frequentemente. - a sua mão subiu até à curva do meu pescoço,
acarinhando-me suavemente.
- Mas já sabíamos que isso aconteceria, meu bem. -
sorri.
- Eu sei, eu sei.
Devagar, ela chegou mais perto e beijou os meus
lábios, possuindo-os com paciência e toda a luxúria possível.
As suas mãos logo deslizaram pelo meu corpo,
deixando rastros de calor intenso por onde passavam. Uma delas pôs-se na minha
cintura, puxando-me mais para si.
Aquilo era bom. Mais que bom, era excitante e
bastante pecaminoso.
O desejo ia aumentando gradualmente, fazendo-me
arrepiar levemente com o contato.
Ela afastou os papéis que ocupavam a secretária e
ergueu-me, pondo-me sentada ali, bem na sua frente.
Senti-me delirar ao sentir a sua boca no meu
pescoço, fazendo o seu trabalho de uma forma leve e empenhada.
A sua mão foi descendo pela cintura e achou o
caminho para o foco do prazer. Os seus dedos logo tatearam as minhas pernas,
roçando o meu ponto mais sensível por cima da peça de renda branca que o
cobria.
Soltei um gemido surpreso ao senti-la pôr a calcinha
de lado e simplesmente penetrar-me com os dedos, e não houve como não deixar-me
levar com aquilo.
O vai e vem era cuidadoso, fazendo os sentimentos
ficar à flor da pele e evaporar todos os pensamentos que eu tinha na mente.
E ela nem se fazia de rogada.
A sua boca sugava tudo que era pele, deixando um
rastro leve de marquinhas avermelhadas por onde passava. Começara no pescoço, e
fora descendo e descendo até chegar ao pequeno decote do meu vestido branco de
margaridas.
- Não fui a única a ter saudades disto, hm? -
assenti com a cabeça, apreciando a sua voz grave de tanto desejo acumulado.
O loop tomava conta de mim, fazendo-me arquear e
arfar descontroladamente, seguindo os seus desejos. Ela sabia onde tocar para
chegar ao destino certo.
Aquilo arrastou-se por uns minutos. Longos e
prazerosos minutos em que decidimos levar a situação para onde deveria
realmente estar: na cama.
A chuva forte e os trovões traziam consigo a
penumbra da tarde pelas janelas enormes que rodeavam o quarto, escorrendo pelo
vidro enquanto os gemidos ficavam cada vez mais altos, mostrando o nosso
deleite e desespero total.
Os olhos sabiam apenas revirar-se, sentindo a
avalanche de prazer que aquele roçar trazia para nós.
O suor brotava dos nossos poros e permanecia na pele
como o orvalho da manhã, mas o esforço árduo valia a pena.
Casais fofos sempre têm sexo bruto.
Sentindo-me tremer por completo, no limite de tanto
segurar, um gemido sôfrego simplesmente deixou os meus lábios, denunciando o
meu orgasmo potente. E ela não demorou muito mais que eu.
Desfalecemos no colchão, molhando os lençóis abaixo
de nós, tentando regularizar pelo menos a batida frenética dos nossos corações.
Olha... Eu não esperava terminar daquele jeito.
Mesmo depois de tudo, ela puxou-me para perto,
deixando-me usá-la como almofada enquanto os seus dedos punham-se num cafuné no
meu cabelo, acariciando-o pacientemente.
Uns bons momentos passaram-se comigo a apreciar o
ambiente pela janela, até decidir pronunciar-me.
- Tudo bem? - perguntei, simplesmente.
- Claro. - ela deixou um risinho escapar. - E
contigo?
- Sei lá. - dei de ombros.
Sim, tudo aquilo foi bom, mas alguma coisa ali
estava errada. E eu conhecia-me bem o suficiente para saber que a minha
intuição não errava.
Ela franziu o sobrolho.
- O que aconteceu? Não... - cortei-a com um aceno
negativo, testando um sorriso de canto.
- Eu gostei, o problema não é esse. - suspirei, sem
saber como explicar o que sentia. - Queres saber? Não ligues para mim, eu estou
bem.
Ela revirou os olhos, com um sorriso.
- Boba ela, acha mesmo que me vou esquecer disto. -
debochou, rindo. - Diz lá, o que se passa?
- Não é nada de mais, a sério. - era mentira, nós
duas sabíamo-lo bem.
Aquela energia era tóxica, asfixiava-me e repelia-me
por completo.
Alguma coisa havia acontecido, e não era recente
não.
Arrepiei toda, enojada com aquela impressão maligna,
e apenas deixei-a ali e corri para o banho.
Fechei-me no box e girei a maçaneta com pressa,
aliviando-me de imediato ao sentir a água escorrer por mim.
Que porcaria aconteceu? O que era aquilo?
- Olívia, que merda...? - abri os olhos, vendo a sua
sombra do outro lado do vidro opaco.
- Não fizeste nada de errado, pois não? - perguntei,
assustada com aquela aura tão forte.
- Pelo que eu saiba, não. - sem pedir permissão, ela
entrou ali também, aproximando-se por trás e passando as mãos pelas minhas
costas. - O que sentes, hm? Fala comigo.
- Há alguma coisa errada aqui. - respondi,
analisando o seu toque.
Aquela energia vinha dela(?)!
- Ei, vamos manter a calma, tudo bem? - ela pôs-se
na minha frente, abraçando-me num leve aperto. - É apenas um pressentimento.
Os meus pressentimentos são reais, sempre. E
até o diria, mas preferi manter a frase na minha mente, vigiando-a
com desconfiança.
Que merda tu andaste a fazer, Madda?
De banho tomado, vesti rapidamente a primeira roupa
simples que encontrei no closet e peguei vários incensos, acendendo-os e
começando a sessão ali mesmo no quarto.
- Ave Maria gratia plena, fominus tecum,
benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui,
Iesus. Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis peccatoribus nunc et in hora
mortis nostrae, amen.
Andava pelo local, espalhando a fumaça leve por tudo
quanto era lado.
Deixei o quarto e fui seguindo o corredor, fazendo
exatamente a mesma coisa.
Se havia coisa que aprendera na vida era que o mundo
espiritual tinha poder na realidade, e bastava algo maligno para arruinar toda
a estabilidade.
Então, para que tudo sempre estivesse bem, eu fazia
questão de acender constantemente os repelentes de maldade e reparadores de
energia. Ter espanta-espíritos em cada cómodo também era uma das minhas regras.
Depois de passar em todos os quartos e descer
para o andar térreo, deixei os pauzinhos no suporte, deixando-os terminar de
queimar e fazer a sua magia.
O borrifador ocupou a minha mão, e claramente eu fui
borrifando tudo quanto era lado. Água benta para eliminar qualquer presença
nociva ali.
Cheguei à cozinha, encontrando a Madda num lanchinho
tardio, e assim que viu o frasquinho na minha mão, a sua expressão torceu-se
numa careta.
- Precisamos mesmo de fazer isto? - lamentou.
- Se queres continuar a viver nesta casa comigo e os
nossos filhos, sim. Anda, vem logo. - cruzei os braços.
Ela bufou, largando a sandes no pratinho e deixou-o
no balcão da cozinha, vindo até mim de braços abertos.
- Ainda estou curiosa para saber o que fazes que te
deixa tão tóxica. Ser piloto é assim mesmo? - brinquei, fazendo-a rir.
- Ficarias surpresa de saber. - talvez nem tanto.
- Bem... - dei-lhe a última dose de água no meio do
peito, deixando a sua t-shirt húmida. - Deixa-me continuar.
Deixei-a ali e continuei borrifando a casa inteira,
só me dando por satisfeita ao terminar os cómodos todos.
[...]
A mesa mantinha-se silenciosa, enquanto todos nós jantávamos
sem pressa, saboreando a sopa espessa e bastante recheada.
Até puxaria o assunto, mas a minha mente estava
envolta nas paranoias que eu criava, e isso não me deixava com o melhor humor
para passar tempo em família.
- Então, ninguém fala nesta casa? - a Madda
perguntou, com um pequeno sorriso. - Estão tão mortos, nem parece vosso.
- Estou apenas cansada. O dia foi bom. - a Emma
respondeu, mastigando os legumes. - Tivemos aulas e depois demos uma passada no
laboratório e fizemos o maior alarido ao ver que o almoço eram nuggets de
galinha. Aí depois... - o AJ cortou-a, falando por cima.
- Já chega, Shady, não precisas gabar-te da tua
vidinha perfeita cada vez que te pedem para abrir a boca. - aquilo deixou-nos
surpresas.
Quer dizer, já há algum tempo que as suas atitudes
passivo-agressivas vinham a espantar-nos, mas nunca de forma tão direta e
ácida.
- Há alguma coisa errada que eu não saiba? -
perguntei, encarando-o.
Ele apenas deu um risinho sarcástico, sorvendo o
caldo na colher.
- Nada demais, mãe, nada interessante para ti.
- franzi o sobrolho. "Mãe"?
- E desde quando eu sou 'mãe', Alex? - arqueei uma
sobrancelha, vendo-o fingir uma expressão surpresa.
- Ah, e é mentira? Quer dizer, mesmo com a
presença da Shady e de Mrs. Madeleine, a única pessoa que tem o meu sangue
és tu.
Alguma coisa estava errada com aquele rapaz.
- Mas desculpa, Livy. Portei-me mal, lamento. - o
sarcasmo nas suas palavras era pesado.
- Alex, não permito que fales assim com a tua mãe. -
a Madda estava chocada.
- E permites-te estar a fazê-la de idiota como
sempre, não é? - ele rebateu, enraivecido.
A Emma segurou-lhe o pulso, chamando-lhe a atenção.
- O que estás a fazer?! - murmurou, impaciente.
- Volto a perguntar, há alguma coisa de errada que
eu não saiba nesta casa? - o meu tom de voz tornou-se autoritário no momento.
- Eu não abro a boca. Mas pergunta à tua querida
esposa, talvez ela tenha algo a dizer. - só me faltava essa.
- Alex, pelo amor de santa. - a Emma bufou, já vendo
onde aquilo daria.
- Pergunta-lhe pela Chris, talvez tenhas um mexerico
bem fresco para te entreter. - e terminou, calando-se de vez.
Confesso, uma onda de ciúme e insegurança abateu-se
sobre mim.
- O que a Christina tem a ver comigo? - o
meu olhar focou-se na Madda, que, agora mais que nunca, parecia deveras
culpada.
Um silêncio pesado envolveu a casa, enquanto ela
tentava decidir por onde começar.
- O meu último voo foi para Luanda, sabes disso.
Acabamos encontrando-nos lá, a pedido dela. - ela suspirou, baixando o olhar. -
Não foi propriamente algo que gostaria de ter guardado na memória.
- O que aconteceu, Madeleine? - toda aquela
assertividade era apenas um escudo para não despencar nas minhas paranoias.
- Acabei bebendo demais e... Tu sabes o que
aconteceu.
Os meus lábios abriram-se, deixando sair o ar que
guardava nos pulmões.
Aquilo não podia ser real.
Sentindo-me colapsar, deixei a mesa e saí pela porta
dos fundos. Não aguentaria mais um segundo dentro daquela casa.
Desci as escadas que dividiam o quintal e davam para
a sala que tínhamos construído, bem no meio.
Uma construção circular, com paredes de madeira e um
teto vidrado, com uma visão perfeita para as estrelas.
Adentrei o lugar e sentei-me no sofá vinho, tentando
acalmar-me.
A minha mão tirou do bolso um maço de cigarros e um
isqueiro, e tremulamente acendi um deles, deixando o fumo sair à medida que as
lágrimas molhavam o meu rosto.
Aquilo provavelmente deixaria cheiro nos estofos,
mas eu nem queria saber.
O peito doía-me demais para estar a pensar em coisas
fúteis.
O meu pressentimento estava certo, afinal de contas.
Como sempre, ele estava certo.
Deixei um risinho magoado, vendo a minha imaginação
vaguear nas mais loucas situações entre elas duas.
Apenas peças pregadas pela minha mente, com o
intuito de magoar-me e fazer-me sentir muito mais burra do que realmente era.
Um cigarro tornou-se dois, e dois tornaram-se três,
mas mesmo assim a dor parecia não amenizar.
O som suave do fechar da porta despertou-me do meu
transe, e apareceu o Alex, com o semblante neutro e uma tigela nas mãos.
Limpei rapidamente as lágrimas, vendo-o aproximar-se
e sentar-se do meu lado.
- Toma. Sempre dizes que te faz lembrar as partes
boas da infância. - ele estendeu-me a tigela.
Um sorrisinho soltou-se de mim ao ver o que era.
Gelado de baunilha e mirtilos.
- Obrigada. - aceitei-a de bom grado, apesar do
desânimo. - Não devias ver-me desse jeito.
- Não vejo mal algum, eu sei que tu não és perfeita.
- ele sorriu ao ver-me apreciá-lo. - Perdoa as minhas atitudes hoje, eu estou
irritado.
- Sei que sim. - suspirei. - Mas, sobre a Shady,
precisas aprender a controlar essas emoções. Mesmo tendo sangues diferentes,
ela não deixa de ser tua irmã.
- Ela sabe que não o fiz por mal. Foi ela
quem me contou tudo, afinal de contas.
Pusemo-nos em silêncio, apenas provando da sobremesa
enquanto observávamos o céu estrelado.
Aquilo amenizava um pouquinho.
- Sobre aquela situação... - ele encarou-me,
hesitante. - O que vai acontecer?
- Não te preocupes com isso. - forcei um sorriso. -
Eu digo-te se houver alguma mudança.
- Sabes que ela está lá em cima a partir a
mobília, não é? - ri com o seu tom. - Mas a Shady está lá. Do outro lado da
porta, mas está.
- Devíamos ir lá e ver deles. - levantei-me, e ele
fez o mesmo, puxando-me do nada para um abraço.
- Mãe, por amor de santa, para de fingir que
está tudo bem, eu sei que mentes.
Sorri, focando-me em não chorar
enquanto acariciava os seus cachos loiros, com as raízes mais
escuras.
- Tens mesmo de parar de chamar-me desse jeito,
sinto-me velha. - fi-lo rir baixinho.
Mesmo sem mais palavras, ele percebeu o que eu
queria dizer. Ele conhecia-me bem, afinal.
Deixei um beijo na sua testa.
- Eu amo-te demais, pequeno AJ. Mesmo que já sejas
um adolescente e já nem precises de mim para muita coisa, ainda serás um bebé
loirinho aos meus olhos.
[...]
Expirei profundamente, de frente para a porta.
Eu não sabia o que aconteceria assim que abrisse a
porta. Não estava pronta, mas precisava encará-la, por todos nós.
Os meninos tinham ordens para permanecer nos
quartos, e eu sabia que lá ficariam, mesmo preocupados. Afinal, eles conheciam
muito bem a mãe que tinham, sabiam que não era aconselhável pôr-se na frente de
uma Madeleine quando ela estava no meio de um ataque de fúria.
Ergui a cabeça e abri a porta, já ouvindo o som do
vidro partir-se brutamente em milhões de cacos.
Credo, aquele lugar estava em completo caos.
A base do design ainda estava intacta, era verdade,
mas o resto da decoração, bem... Não se podia dizer o mesmo.
Os cacos coloridos brilhavam no assoalho, e eu
passava com cuidado por eles, tentando achar um ponto para começar aquela
conversa.
Parei longe dela, vendo-a deixar um último soco na
parede, marcando os nós dos seus dedos nela.
Ela virou-se e encontrou-me, respirando
freneticamente, os olhos húmidos de lágrimas e as mãos totalmente
ensanguentadas.
O clima estava tenso, até demais.
- Senta-te. Vamos conversar. - disse, expressando
pouco mais que seriedade no tom.
Ela demorou, mas assentiu, e lá fomos sentar-nos no
sofá acinzentado, de frente uma para a outra.
Por baixo da pequena mesa de apoio feita de madeira,
tirei a caixa de primeiros socorros, e foi tirando gaze e enxugando o seu
sangue que comecei.
- Toda esta raiva não nos leva a lado nenhum. O que
está feito está feito... E infelizmente nenhuma de nós pode mudar isso.
Tentava ser cuidadosa, para não a magoar, e isso
valia tanto para as minhas palavras quanto para as suas feridas.
- E sim... Dói. Dói muito mais do que esperava. -
porcaria de sensibilidade... A minha voz já se embargava novamente. - Saber que
sabias o que ia acontecer, porque não se espera mais nada da Christina, e mesmo
assim teres ido até lá... Tê-la feito sentir a mulher mais especial da noite
enquanto eu aqui, com os nossos meninos, a questionar-me se estarias bem ou se
também pensavas em mim do mesmo jeito... Ledo engano.
Eu tentava controlar-me, a sério que sim, mas estava
impossível.
- Dói saber que tenho tido tanto cuidado com estes
onze anos de casamento, e tu foste capaz de... - todos aqueles sentimentos
abateram-se novamente sobre mim, fazendo as lágrimas subirem furiosas e
incontroláveis num mísero segundo. - Desculpa.
Até tentei, mas não era capaz. Nunca tivera coragem
de manter a máscara de mulher forte e razoável, eu sempre desabava.
- Desculpa, eu não consigo fazer isto. - saí dali a
rápidos passos e, com a mesma pressa, ela seguiu-me.
- Olívia! - antes que ela pudesse articular mais uma
palavra sequer, a porta do banheiro fechou-se e trancou-se, deixando-me de
joelhos no chão, enquanto soluços altos deixavam a minha garganta sem permissão
alguma.
As lágrimas molhavam as minhas mãos e o chão todo,
fazendo a minha cabeça latejar e a garganta quase se fechar de tanta pressão.
Um grito agonizante saiu de mim, uma expressão
simples e verdadeira do que eu sentia na pele.
Aquilo não podia ser real.
Sentir-me tão quebrada era anormal para mim, mesmo a
mesma coisa já tendo acontecido tantas vezes.
Eu realmente achava que tudo seria meramente
perfeito com ela. Como sempre, apenas eu sendo um pouco burra demais.
Sentia-me destruída.
O vibrar intenso do telemóvel no meu bolso
despertou-me daquele transe todo.
Tentei recompor-me da melhor maneira possível, e
olhei para quem ligava. Natasha Luffen.
- Olá, Natasha. - atendi, mudando de idioma no
instantâneo.
- Olívia, que raios se passa em tua casa? A Shady
ligou para mim aos prantos, dizendo que tu e a Madda estavam com problemas, que
ela tinha-te ouvido gritar, o que aconteceu?
Fechei os olhos, tentando acalmar as coisas.
- Nada de mais, Nat, apenas... - suspirei. - Estou
um pouco stressada. Isso passa.
- E essa voz de choro, como explicas? - ela já
sabia, eu sabia que sim, nem entendia o porquê de continuar a fingir.
- Yeah... Acho que já deu para se notar que eu não
estou lá muito bem. - deixei um risinho desanimado. - Mas acredita em
mim, não é nada demais. Estou apenas um pouco... Magoada.
Tudo estava caótico naquele momento.
- Talvez daqui a mais um tempo eu te diga algo mais.
- Tens a certeza que está tudo bem? - assenti, mesmo
sem certeza alguma. - Tudo bem então. Eu vou desligar, mas assim que
puder, eu vou à tua casa e nós vamos conversar sobre isto,
porque, sinceramente? Estás a assustar-me. Combinado?
- Claro. - forcei um sorriso. - Tem uma boa noite,
Natasha.
- Tu também. Cuida-te.
E num suspiro preocupado, ela desligou.
Joguei o telemóvel para longe, deitando-me no chão
frio e fitando os olhos no piso de mármore, deixando as lágrimas simplesmente
descerem, sem barulho nem nada do género. Apenas escoarem e levarem consigo a
dor, a agonia e todas as memórias tão doces que se tornaram tão amargas depois
daquela noite.
Com a cabeça imersa, era tanta coisa que eu nem
percebi quando adormeci ali mesmo, no chão. Só reparei um bom
tempo depois, quando abri os olhos e encontrei a claridade das luzes
alaranjadas.
Levantei-me com cuidado, sentindo o corpo reclamar
da superfície tão dura em que ficara durante tanto tempo.
As cãibras desapareceram depois de alguns movimentos
leves.
Acabei por tomar um banho rápido e logo deixei o
lugar, indo para o closet. O pijama desta noite era uma calça de cetim azul
escura, estilo pantalona, e uma blusinha de alças branca, com estrelinhas da
mesma cor.
Só ao sair é que reparara no quarto novamente
arrumado, limpinho e com as luzes todas apagadas. Já devia ser tarde.
Lá estava ela, deitada na cama, virada para a
janela. As mãos completamente enfaixadas chamavam à atenção no meio dos lençóis
vinho.
Ao sentar-me na cama e esticar o braço para apagar a
luz do meu candeeiro, um papelinho chamou-me à atenção.
A curiosidade falou mais alto, e eu peguei nele,
desdobrando-o e encontrando a sua letra esguia.
"Sei que provavelmente nem vais ler isto,
mas... Eu não vou deixar as coisas assim.
Tens razão. Eu não devia ter cedido tão facilmente,
não devia ter estado tão descontrolada naquela noite. Acredita quando digo que
não tenho orgulho de lembrar-me daquilo, simplesmente revira-me o estômago e
dá-me náuseas.
Eu prometi ser fiel enquanto vivesse para ti, e
quebrando essa promessa, bem... Eu percebo se não queiras mais dedicar o teu
viver ao meu ser. Dói, mas eu percebo.
Vamos tentar conversar mais ao amanhecer. Espero que
ainda consigas olhar para mim.
- M.V."
Sim... Aquilo também era doloroso de ler.
Deixei-o de volta na cómoda e apaguei a luz,
envolvendo o cómodo no mais puro breu.
Cobri-me com as mantas grossas e tentei relaxar.
- Eu sei que não dormes. - disse, tentando mais uma
vez ser firme.
Devagar, ela virou-se para mim, fazendo-me perceber
os seus olhos brilhantes no escuro.
- Por acaso... Sentes-te presa a mim?
- Não. - respondeu, com a voz rouca, tanto de sono
quanto de tudo o que acontecera. - Nem me teria posto naquele altar se fosse
esse o caso.
- Isto dói. - confessei, e era sincera. - Mas eu não
quero que isto acabe se nenhuma das duas está disposta a deixar ir.
Com isso, aconcheguei-me, limpando os resquícios de
lágrimas que já iam se acumulando no canto dos meus olhos.
- Vamos tentar, só mais um pouco. - ela suspirou
pesadamente, voltando à posição original. - Já trilhamos todo este caminho...
Só nos resta ir para frente.
Depois daquelas palavras, o silêncio também se
embrenhou ali, dando espaço para que o sono se grudasse ao momento,
trazendo consigo o calor confortável dos braços de Morfeu.
Pelo menos nos sonhos havia paz, mesmo que pouco
duradoura. Naquela praia que apenas existia nos meus sonhos, rodeada da melhor
paz, todos os pensamentos tóxicos eram mandados para os confins da mente, e
realmente pude descansar, revitalizar tudo o que precisava de uma nova vida.
E logo o dia novamente nasceu, trazendo consigo a
certeza de uma nova tela em branco, que seria pendurada no museu da vida com as
lembranças dele.
Despertei com o som suave de pássaros e
o alarme das 06:45, que sempre ecoava na casa nos dias úteis.
Levantei-me sem pressa, calçando as pantufas
felpudas e indo começar o dia no banheiro.
Nem era de se estranhar que o quarto estivesse
vazio.
Sim, resquícios da energia pesada de ontem ainda
pairavam pela casa, e isso significava estar a acender incensos o quanto antes,
mas naquele momento eu preferia deixar assim mesmo.
Uns minutos, com a higiene feita e pronta para mais
uma boa manhã no escritório, estava eu, na frente do espelho do closet.
Remexi-me uma e outra vez, apreciando o look do dia.
O conjunto de calças e blazer verde-lima e a blusa
branca soltinha deixava-me casual, e os botins de salto pretos só enfatizavam
isso. Prendi os cabelos num apanhado lateral rápido, vendo alguns dos caracóis
soltarem-se e espalharem-se, e era isso.
Soltei um risinho ao reparar que nem se notava a
agonia que passara na noite anterior.
Desci as escadas, já ouvindo a música leve que soava
na cozinha.
- Bom dia, meninos. - cumprimentei, encontrando-os
sentados na cozinha, entretidos com o pequeno-almoço.
- Olá, Livy! - a Emma já veio beijando delicadamente
a minha bochecha. A sua energia era fofa, doce e enérgica, fazia-me sempre
cócegas na ponta do nariz.
- Gostei, gostei. - ri, vendo a sua figura.
Sendo criativa da forma que era, a única forma de
expressar a sua originalidade era adicionar retoques ao uniforme escolar,
dando-lhe um quê louco que era característico dela.
Hoje, a típica saia curta colegial, camisa e blazer
tinham vários pins de flores e bonecos, e isso junto com as suas meias-calças
pretas e botas pretas, fazia-me pensar o quão louca aquela menina podia ser.
Ela encarou-se, deixando a sua clássica gargalhada
alta sair com naturalidade.
- Eu sei, eu também. Mal posso esperar para sair
desta estúpida academia e usar roupas normais como o resto do mundo. -
lamentou.
- Mrs. Shady, por favor, moderação. - o AJ pediu,
sem deixar de se focar na tigela de cereais de chocolate na sua frente.
- Pois, tens razão. - ela logo pôs-se séria,
ajeitando as duas tranças por cima do ombro, mostrando o contraste dos fios
naturalmente escuros com as mechas loiras que tingira.
- Vocês... - ri novamente, indo procurar alguma
coisa para matar a fome, enquanto ela subia as escadas com pressa, quase
tropeçando num degrau.
Passei por trás, e não resisti a beijar o topo da
cabeça do principezinho, sentindo o cheiro doce e pungente que vinha dos seus
cabelos.
- E bom dia para ti também, Livy. - ele sorriu de
canto, já habituado com aquele tipo de demonstração de carinho.
- Olá, pequeno AJ. - fi-lo revirar os olhos, rindo e
afastando-me.
- Está tudo bem? - assenti com a cabeça, mesmo sendo
mentira.
- E contigo, menino, está tudo bem? - ele assentiu
com a cabeça, levando mais uma colherada à boca.
- Hoje há aula de música, não te esqueças. -
sim, claro.
- Queres que te vá buscar? - perguntei, enchendo uma
tigela com iogurte natural, granola e framboesas.
- Não sei ainda. Eu e o Theon ficámos de ensaiar um
pouco mais.
Não era preciso muito para perceber o quanto aqueles
dois estavam envolvidos até ao último fio de cabelo.
Acho que nem ele percebera o tom rosa que se
instalara nas suas bochechas, mesmo mantendo a postura séria. Sorri com aquilo.
- Pois, sim, o Theon. - dei uma colherada,
encarando-o de forma cúmplice.
Ele quebrou a seriedade e constrangeu-se por
completo, fazendo-me rir alto.
- Meu credo, Alex, nem fingir tu consegues. - ri um
pouco mais. - Gostas dele, não é?
- Sim. - o seu sorrisinho era fofo demais. - Mas
isso não é recíproco, então não há chance de acontecer nada.
- E como sabes isso? - questionei, curiosa.
- Simplesmente... Sei. Ser o 'melhor amigo' tem os
seus benefícios. - ele logo voltou ao ser normal estado sério.
- Okay então. Se tu o dizes... - dei de ombros.
Algo em mim dizia que aqueles dois ainda acabariam
juntos.
Logo o pequeno-almoço passou, e saímos os três, e
depois de deixá-los na academia, o meu destino era o escritório, onde ficaria
pela manhã toda.
O trabalho necessitava de mim a 110% e isso era
fácil fingir, mas hoje tinha o seu preço.
Trabalhar sem parar distraía-me de todos os
pensamentos negativos e suicidas, era verdade, mas intensificava a pressão da
cabeça, fazendo-a latejar e doer como nunca antes.
Mas eu preferia assim.
Preferia o cansaço daquelas páginas cheias de dados
a secar a água e o sangue do corpo.
Preferia tudo aquilo a sentir tão imaculadamente a
dor de um coração partido.
E, raios... Era inacreditável.
A meio do dia, o meu telemóvel tocou, e olhem a
minha surpresa ao ver quem era.
- Olá, baby Sol! - eu morria de saudades daquela
moça.
- Hey, miúda! - ela suspirou, sem saber por onde
começar. - Então...
- Já sabes, não é? - odiava aquele suspense.
Ela suspirou.
- Sei. Estive a conversar com a Madda esta manhã. -
imaginei que sim. - Eu não estava à espera disso, nenhum de nós estava.
- E eu também não estava. Mas aconteceu, e agora eu
preciso de uma solução. Não é como há 15 anos atrás, quando eu podia
simplesmente fazer uma mala e seguir a minha vida. Os miúdos também estão
confusos com isto tudo. - mordiscava o lábio inferior, culpa da ansiedade.
- Eu sei, princesinha, e sigo exatamente a tua linha
de pensamento. - suspirou. - Eu realmente estou bloqueada, não sei como ajudar.
Mas se precisares de mim, a qualquer momento, eu estou aqui.
- Sei que sim. - sorri.
Naquele exato momento, um dos alarmes soou e fez-me
olhar para o relógio. Hora de sair.
- Eu tenho de ir, Sol, mas depois eu ligo de volta.
Adeus!
Ela despediu-me também, transparecendo pura
preocupação, e a ligação foi cortada.
Sem mais que fazer, arrumei a secretária e peguei
nas minhas coisas, indo para o carro e acelerando para fora dali.
Enquanto mantinha atenção na estrada, marquei o
número do AJ, esperando chamar.
- Sim, Livy? - ele atendeu, carinhosamente.
- Olá, meu bem. Tudo bem por aí? - perguntei, com um
sorrisinho.
- Sim, por acaso. A Shady está aqui a
assistir à aula, decidiu esperar por mim porque não queria andar sozinha
nesse clima chuvoso.
- Fez ela muito bem. Querem que vos vá buscar ou...?
- Nah, podes ir para casa. Se precisarmos de ti,
sabemos o que fazer. - ri com aquilo.
- Adeus e beijinhos. - e a chamada terminou, daquela
forma simples mesmo.
Conversas curtas e objetivas, sim, mas era o nosso
jeitinho.
Com a Madda ele era um pouco menos dado à seriedade,
já que ela era mais parecida com a Shady, mas comigo ele deixava-se estar,
porque sabia que eu não me importava, desde que fosse sincero.
Cheguei a casa num instante, meio surpresa por ver o
carro da Madda estacionado na garagem.
Bom, isso significava mais uma conversa.
Ao invés de subir pela despensa e já sair pela cozinha,
dei a volta e subi as escadas, entrando pela porta de frente.
Os casacos foram deixados no cabide e fui até a
cozinha, servindo um copo de água para matar a sede.
- Boa tarde. - virei-me, vendo-a aparecer e parar na
porta.
- Olá. - um sorriso de canto relâmpago surgiu nos
meus lábios. - Tudo bem?
- Para ser sincera, nem sei. - suspirou.
Encarei-a. Os calções pretos com rosas estampadas e
a camisola preta de mangas compridas mostravam a sua pele chocolate,
guardando-a também do frio.
Pousei o copo no balcão, vendo-a aproximar-se. Ela
sentou-se numa das cadeiras.
- Podemos? - perguntou, tentando ao máximo não
forçar a barra.
Sem escolha, assenti, sentando-me do seu lado.
Eu já tinha dito o bastante, era vez dela de falar.
- Olha... - suspirou. - Eu sei. Eu realmente percebo
tudo o que te passa pela mente. Sei o quanto dói, o quanto te esforças para não
te descontrolares e não descarregares em ninguém. E sei que... Sei que a merda
foi grande desta vez. Não sei o que fazer para consertar, mas isso não anula o
facto de eu te amar.
Um risinho amargo não resistiu a escapar da minha
garganta.
- Amar-me? - encarei os seus olhos. - Que amor
doentio é esse que sentes, Madeleine? Que amor é esse que te leva a estar tão
longe de mim, a enganar-me, que te leva a fingir para agradar?
Uma onda fervente de raiva corria junto com o meu
sangue.
- Tu sempre dizias que não querias nada mais, que
estava tudo perfeito. - sorri, magoada. - Mas se precisaste de sair daqui e ir
até Luanda para encontrares o que te completava... Então, o que não estava
perfeito? Será que a minha alma, o meu ser e o meu coração não eram
suficientes? Será que há algum erro em mim, alguma coisa que te sempre te
repeliu em mim? Será que te magoei, será que te feri, será que por um mísero
dia eu não pensei em ti antes de mim mesma?
Sentia-me perder as forças. Toda aquela mistura de
emoções era nociva para mim.
Finalmente, depois de tanto esforço, as lágrimas
conseguiram escapar ao autocontrole e desceram devagar.
- Eu deixei a minha vida para trás por tua causa,
Madeleine. Perdi a minha mãe, a minha família, perdi amigos porque estava
pronta para ter um laço eterno. - até tentava secar o rosto, mas era
impossível. - E agora isto... Não dá, Madda, não dá.
Claro que tinha muito mais a dizer, mas toda aquela
conversa era um gatilho enorme para mim.
Levantei-me e tentei afastar-me, mas ela segurou-me
pelo braço.
- Olívia, espera... - cortei-a logo.
- Tudo que eu tinha de ouvir eu já ouvi. - fui
subindo as escadas, com ela a seguir-me.
- Eu sei, mas deixa-me apenas resolver, eu...
Aquilo só me magoava ainda mais.
Cheguei ao quarto e tranquei-me no banheiro, vendo-a
bater à porta com desespero.
Sentia a minha cabeça às voltas.
Sentei-me no tampo da sanita, fechando os olhos e
tentando pelo menos amenizar a dor de cabeça matadora que me assombrava.
Logo senti um vibrar insistente no telemóvel e
tirei-o do bolso, encontrando algumas mensagens da Karen.
"Hey Livy! Há algo que precisas ouvir. A Sol
não quer que tu saibas disto, mas eu não posso deixar as coisas assim. Por
favor, não te machuques com estas informações."
E anexado a isto, um ficheiro de áudio. Respirei
fundo, e dei o play.
Era a voz da Christina, já meio rouca e tocada pelo
álcool.
"Sol, pelo amor de Deus, quantas vezes eu
preciso dizer que a culpa não foi minha?"
Ela suspirou, com certa hesitação.
"É verdade, eu chamei a Madda até aqui, nós
conversamos e até resolvemos algumas das nossas divergências, mas aí ela veio
com um papo de não estar satisfeita, que a vida na Suíça não ser o que ela
queria e que precisava de um pouco mais de aventura. E é claro que o assunto
foi ficando cada vez mais sexual, e por isso mesmo eu não liguei, porque nós
duas sabemos que a Madda não é de trair. Estando a dizer tudo aquilo, eu pensei
que ela e a Olívia se tivessem separado ou algo assim."
O meu queixo simplesmente caiu.
Os tremores vieram em tempo recorde, fazendo-me
deixar cair o telemóvel no chão, enquanto as lágrimas caíam e a visão
transformava-se no mais puro negro.
Madeleine... Como
pudeste?
Sem qualquer controle, apenas fui riscando e
riscando, rasgando a pele e deixando todo aquele sangue sair, num alívio
doloroso.
Apenas mais vermelho por cima daquelas cicatrizes
tão antigas.
Acabei alcançando um ponto onde a dor era
simplesmente demais para suportar, e só me restou despencar no chão, sem mais
forças para aquele dia.
A última coisa que ouvi foi o estrondo alto da
porta, e passos apressados virem até mim.
- Mãe!
MADELEINE
- Isto é tudo culpa tua! - a Emma chorava
desalmadamente, aos berros com tudo e todos, enquanto era impedida de se
aproximar da mãe pelos paramédicos e pelo próprio Alex.
- Shady. Por favor, acalma-te. - ele estava
demasiado composto para aquele momento tão trágico.
- Acalmar nada, Alex, a Livy está à beira da morte
por causa disto tudo e pedes-me para acalmar?!
- Shady, porra! - ele perdeu o controle por um
momento. - Achas que também não estou morto de medo do que pode acontecer? Por
Deus, vamos pelo menos tentar manter a calma antes de perder a cabeça.
Ela bufou, assentindo com a cabeça, e ele recompôs-se,
fazendo o mesmo.
Logo pudemos entrar para o hospital, e eles apenas
ficaram na área de espera enquanto eu permaneci bem ali ao lado do quarto, onde
os médicos lutavam para mantê-la sã e salva.
Passei a mão pelos cabelos, vendo a proporção absurda
que aquilo havia tomado.
E pensar que tudo começara com um erro meu.
Logo eu, que havia-lhe prometido mil e uma vezes ser
diferente de todos os outros.
Não havia como esquecer o que acontecera momentos
atrás.
Ela trancada no banheiro, e eu desesperada no lado
de fora. E logo os meninos chegaram, procurando por ela para algo importante.
Eles chamaram, mas nem assim ela respondeu.
E foi nessa altura que percebi que algo estava
errado.
Batemos, tentámos abrir, mas nada. E o cheiro forte
a ferro subiu.
O desespero bateu de cara, as investidas na porta
eram brutas, os gritos eram cada vez mais altos.
O Alex parecia absolutamente fora de si, o suor
brotava na sua testa enquanto ele forçava o ombro contra a porta.
E quando eu fui fazer o mesmo, consegui arrombar,
mas o que vi fez o meu coração estilhaçar-se em milhões de pedaços.
Era muito sangue no chão.
Eu corri até ela, tentando manter o seu coração a
bater, enquanto a Emma perdia a cabeça de tanto gritar e o Alex chamava ajuda.
Os paramédicos chegaram em tempo recorde, e
levaram-na dali, conosco atrás.
E, naquele momento, todo meu ser estava em alerta
sabendo que a sua vida estava ameaçada. E pior, por minha culpa.
Olívia, não te atrevas a deixar-me.
Eu sabia daquele hábito. Quando nos conhecemos,
aquele era o alívio dela. Além da música, aquela era a sua forma de libertar a
dor do seu coração. E eu cuidava das suas feridas com uma paciência invejável.
Demorou um pouco até ela deixar a conexão com as
lâminas, mas pouco a pouco, as cicatrizes foram-se curando. Até nunca mais
haver um corte naqueles pulsos.
Passaram-se anos e mais anos, apenas à base de
remédios e bastante terapia, e isso bastava.
Mas agora... Eu era a responsável por gatilho tão
forte que havia estragado completamente aquele processo tão longo.
E doía. Demais.
- Conseguimos. - o médico aproximou-se de mim, com
um sorriso bastante aliviado. - Os cortes foram profundos e ela perdeu bastante
sangue, mas conseguimos estabilizar a situação. Mantemo-la sedada por mais
algumas horas, para que possa descansar, mas ela está bem.
Suspirei, sentindo-me até mais calma.
- Obrigada. - sorri de canto, limpando os olhos
húmidos.
Ele acenou com a cabeça e dispersou, e com isso eu
adentrei o quarto, já encontrando lá o Alex sentado no banco.
Sentei-me longe dele, vendo-o respirar de forma
branda, com os olhos fechados e os braços cruzados. Antes que eu sequer pudesse
abrir a boca, ele começou.
- Mandei a Shady para a casa da Cori, para descansar
um pouco. Ela estava rouca e exausta demais para estar aqui e ver isto.
Ele inspirou fundo, antes de continuar.
- Mãe, eu amo-te, a sério que sim. Mas não consigo
deixar de me enraivecer sempre que me lembro do que fizeste. - ele sorriu,
sarcástico. - Eu realmente achava que a amavas a ponto de seres superior a
isto.
- Eu também. - e era verdade. Suspirei, derrotada. -
Desculpa-me por tudo isto.
- E agora, como fica? Vão-se divorciar? - perguntou.
- Acho que sim. Tudo vai depender do que a Livy
quiser. - suspirei, derrotada.
Um breve momento de silêncio foi feito ali, apenas
para apreciar quem descansava pacificamente ali.
- Eu perdoo-te, mãe. - ele humedeceu os lábios, tentando achar uma posição mais confortável no banco. - Só não sei se ela faz o mesmo.
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